MANAUS, AM- A crise no Condomínio Bem Viver Total Ville-Paraíso, que já envolvia uma batalha judicial e um relatório de irregularidades fiscais de R$ 32,6 mil, assume agora contornos mais sombrios e pessoais. A reportagem teve acesso exclusivo a prints de conversas, relatos e documentos que acusam o ex-síndico Helderlan dos Reis Souza de assediar sexualmente moradoras, importunar uma idosa e usar sua posição para manter casos com uma agente de portaria e uma moradora, utilizando inclusive a estrutura do condomínio para favorecê-las.
As acusações, que incluem desde a criação de um “clima de terror” com perseguições até a tentativa de agressão a um morador, pintam um retrato de um administrador que, segundo os moradores, agia com total impunidade.
O assédio e a importunação sexual
Diferente das irregularidades contábeis, que são mensuráveis, as acusações de assédio causam um dano moral profundo na comunidade. A reportagem analisou prints de conversas onde o ex-síndico supostamente envia mensagens de cunho sexual e íntimo para uma moradora, sem o seu consentimento.
Em um dos relatos, uma idosa, avó de uma das vítimas, chegou a denunciar publicamente em uma assembleia que Helderlan estaria importunando sua neta. Os prints das conversas, que serão publicados com a identidade da vítima preservada, corroboram a versão de assédio persistente.











A rede de favores e o caso com a agente de portaria
As acusações não param no assédio. Moradores relatam que Helderlan mantinha um caso com uma das agentes de portaria. A relação teria viabilizado uma série de benefícios indevidos.
“Ele utilizava o carro de síndico para manter casos com mulheres dentro do condomínio. Uma moradora de uma das torres e uma agente de portaria”, denuncia um morador que preferiu não se identificar.

Prova disso seria um áudio, ao qual a reportagem teve acesso, no qual o ex-síndico, já afastado do cargo pela Justiça, cobra uma agente de portaria sobre o paradeiro de encomendas. A denúncia é que a ex-funcionária, sua suposta amante, usava o endereço do condomínio para receber suas encomendas pessoais. Helderlan, então, as recolhia e as levava até a casa dela, usando sua condição de morador para desviar encomendas do fluxo oficial do condomínio para benefício pessoal.
O esquema do mercadinho virtual
Além dos desvios de conduta moral, surgem acusações de um esquema financeiro irregular. Helderlan é acusado de ter fechado um acordo com o antigo dono de um mercadinho virtual instalado dentro do condomínio.
Segundo os moradores, em troca de uma porcentagem dos lucros, o ex-síndico permitiu que o estabelecimento operasse sem pagar as contas de luz e internet, que eram rateadas entre todos os condôminos. Ou seja, os moradores estavam, sem saber, subsidiando os custos operacionais do negócio privado.
“Quando a atual síndica assumiu, ela pediu que o novo dono do mercadinho assumisse seus próprios custos com energia e internet. Só aí se descobriu o rombo que todos estávamos pagando”, explicou um integrante do Conselho Consultivo.
Violência e perseguição
O clima de intimidação supostamente instaurado por Helderlan teria culminado em um episódio de violência. A reportagem obteve um vídeo que mostra o ex-síndico tentando agredir um morador, aos gritos, e só recuando quando percebe que está sendo filmado. Em seguida, ele pede para que sua esposa comece a gravar, numa tentativa, segundo os moradores, de inverter os papéis e se fazer de vítima.
O outro lado e o contexto jurídico
A reportagem tentou contato com o ex-síndico Helderlan dos Reis Souza e seu advogado, Diego Weendel Pinheiro Boschi, para que se pronunciassem sobre todas as acusações – das fiscais às de assédio e violência –, mas não obteve resposta.
Enquanto isso, a batalha judicial continua. Helderlan impetrou um Mandado de Segurança no Tribunal de Justiça do AM contra a decisão que o destituiu e que suspendeu assembleias que questionavam sua saída. Seu recurso, no entanto, não comenta as acusações de assédio e desvio de conduta moral, focando em supostos erros processuais.
Conclusão: um caso que vai além do patrimonial
As acusações contra o ex-síndico Helderlan dos Reis Souza transcendem a esfera financeira e administrativa. Elas atingem a segurança, a dignidade e o bem-estar dos moradores do Condomínio Bem Viver Total Ville-Paraíso. O caso expõe a vulnerabilidade de comunidades condominiais quando um administrador age de má-fé e serve como um alerta severo para a necessidade de uma fiscalização rigorosa, não apenas das contas, mas também da conduta moral daqueles que são eleitos para gerir o patrimônio e a convivência de centenas de pessoas.
